Colunistas de coração de jesus

Elismar Santos é Poeta, escritor, professor e blogueiro. Possui 3 livros publicados.

Em tempos de redes sociais, televisão e tantos meios digitais de comunicação, é surpreendente, para muitos, que os escritos impressos ainda perdurem. A grande verdade é que o povo gosta de ler, o que lhes falta é o incentivo, alguém que pegue um livro, um jornal, um informativo e lhe ofereça, convença-o da importância de uma prazerosa leitura.
Entre os dias 19 e 21 deste mês, tive o prazer de conversar com o jornalista e escritor Alceu Augusto de Medeiros, durante o 1º OI POÉTICO, brilhantemente realizado pelo amigo Ubirajara Macedo, e, dentre tantos literários assuntos, discutimos a questão do poder da leitura em nossa sociedade. Reclamávamos o fato de que poucas pessoas participavam dos eventos, mas logo chegamos à conclusão de que a aceitação da cultura em nosso meio se dá de forma lenta e gradual, às vezes, com passos consideráveis, noutras situações, com grandes revezes.
Lembro-me dos antigos carnavais, que alegravam as nossas noites de fevereiro; também das fogueiras das festas juninas, em quando se roubavam as bandeiras, só para continuar as festividades no ano seguinte. Também não é pecado a recordação do Grupo de Teatro de Palco e Rua Vivaranda, um marco cultural, que abrilhantou a cidade em início dos anos 2000. Mas tudo isso se foi, restando-nos apenas o saudosismo, quiçá, a nostalgia.
Não adianta a procura pelos culpados. Assim como afirmou o amigo escritor, grande parte da culpa há de recair sobre as novas mídias, entenda-se: televisão e internet. Mas, cabe a nós a incansável tentativa de resgatar, pelo menos, um pedacinho da nossa história. Assim como já afirmei por diversas vezes no meu site (www.elismarsantos.com.br) Coração de Jesus é cheia de talentos, com grandes escritores, cantores, artesãos, pintores, enfim, nossa urbe respira cultura; não obstante, cabe aos nossos representantes políticos criarem as condições necessárias para que esta forte vertente cultural possa, de fato, sobressair-se.
Algumas ações apolíticas vêm sendo feitas, a fim de resgatar a nossa cultura. São ações isoladas, mas que, se bem pensadas, elevam a nossa produção cultural a um patamar inestimável. E tudo isto é louvável, haja vista que, com estas minúsculas ações, o povo vai, novamente, pegando o gosto pelas boas leituras, pelos belos artesanatos e quadros artísticos, pelas boas músicas da região. Por isso, reafirmo a minha ideia de que “Cultura nós temos ao monte, o que nos falta é apenas um empurrãozinho de incentivo”. Abraço.

ELISMAR SANTOS TEXTO DO DIA 03 DE AGOSTO

Era uma manhã quente de domingo e ele resolvera pedalar pela cidade. Fazia tempos que não praticava exercício, jogava futebol ou nadava nas águas frias do riacho. A sua vida, agora, resumia-se à empresa e ao velho sofá, de frente à televisão; talvez por isso, já engordara mais de vinte quilos, chegando ao imenso e arriscado grupo da obesidade.
A preguiça era considerável, mas, com um pouquinho de boa vontade, conseguiria cumprir a sua missão. Não pensara muito, apenas pegara a magrela e saira. Começou descendo a ladeira que ligava a sua casa, em um canto recuado, à velha cidade. Não precisaria pedalar naquela parte e isto já lhe parecia um grande alento. Aos poucos, a cidade foi se abrindo por entre a cortina de fumaça que fazia àquela hora. Não seria fumaça de qualquer empresa, mas a névoa que se formara por causa das gotículas que se acumulavam durante a noite, mas que, rapidamente, haveriam de se dissipar.
E a urbe que se via era triste. O que antes fora um antro de beleza e progresso, agora se resumia a um amontoado de casas velhas e prédios históricos em ruínas. Devagar, ele ia pedalando pela pequenina cidade, lembrando-se dos velhos carnavais, das inesquecíveis festas tradicionais e das algazarras que se viam em outras manhãs como aquela, quando a juventude voltava das concorridas festas pelos bairros afastados.
À medida que avançava com sua bike, a preguiça tomava conta de sua alma, as lembranças se avivavam em sua mente e uma terrível nostalgia enchia-o de melancolia. Lembrava-se do velho mercado, da igrejinha que fora destruída, dos sonhos que foram jogados pelo ralo, por pessoas em quem todo mundo acreditava.
Por fim, chegara ao pé do morro, subira e ficara olhando a cidade lá do alto. Era, de fato, uma pequena aldeia, não uma urbe, como deveria ser. Mas era um lugar bonito, assim como as lembranças de antigamente. E, de onde estava, pudera avistar algumas crianças brincando lá embaixo. Eram meninos e meninas descalços, jogando bola, correndo, gritando, sorrindo. Eram crianças vivendo. Então, sua alma encheu-se de esperança e ele teve a certeza de que, um dia, tudo haveria de mudar. Tudo.

TEXTO DE ELISMAR DO DIA 11 DE AGOSTO

Era uma senhora triste. Os cabelos tão alvos como uns algodoais. Não sabia nem mais quantas primaveras havia vivido; no entanto, estava convicta de que as tinha vivido da melhor maneira possível. Não pensava em morrer, mas aceitava que se ela viesse, quando viesse, seria muito bem recebida.
Um dia perguntaram a pobre velhinha sobre o que a fazia viver com tanta felicidade e, sobretudo, com tamanha intensidade. A velha, escondida sob o seu velho cachecol, não se atreveu nem mesmo a sorrir; timidamente falou: "Não sei responder a tão difícil pergunta, sei apenas que fui vivendo cada um dos momentos que foram surgindo a minha frente".
Um senhor de meia-idade, que se encontrava ali por perto, pôs-se a chorar. Vieram lhe perguntar pelo motivo daquele pranto. Ele respondeu que havia se emocionado com a alegria que aquela pobre velhinha demonstrava diante de uma vida tão longa e de um futuro tão curto, enquanto ele, na metade do caminho ainda não tinha vivido nem um instante do que poderia e com uma vida tão longa pela frente, não sabia nem ao menos aonde ir.
Sejamos como a velhinha: vivamos um momento de cada vez.
LUCIANA

Aquele foi o abraço mais forte que ela lhe deu. Aliás, aquele foi o único abraço verdadeiro que ela lhe dera nos últimos anos. Fazia tempo que não sentia mais o corpo da esposa junto ao seu. Já não dormiam na mesma cama fazia tempos; não que ele não quisesse, mas, desde que a Luciana aparecera nas suas vidas as coisas se transformaram. De início, ele não se importou; mas, depois, pesando melhor, assim não dava, e, por fim, resignou-se.
Luciana era só uma amiga em comum. Morava no interior e, por uns dias, viera ficar em sua casa. Ele fora o primeiro a reparar os seus cabelos loiros com a franja caindo na testa; sua boca carnuda, sempre vermelha de batom; seu nariz afilado e seus olhos azuis. Depois, descera um pouco mais e reparara no quanto os seus seios eram durinhos, nem grandes nem pequenos, apenas o suficiente para apertar com a mão. E as coxas?! Que coxas! Torneadas, sobrepostas por um bumbum durinho, sempre de saia ou shortinho bem apertado. Ah, não aguentaria!
Reparou, mas não falou nada. Quem falou foi a esposa. Primeiro, disse sobre o cabelo extremamente loiro e a franja já fora de moda; depois reclamou dos seios de quem nunca deu de mamar. E as coxas?! Pra que um exagero daqueles. E o pior, sempre de saia curta ou shorts apertados. Aquilo era um sacrilégio! E ele concordava: Aquilo era um sacrilégio!
Até que as duas não desgrudaram mais. Sempre juntas: no sacolão,nas lojas, na sala e até no banho. Coisas de amigas, pensava ele. Mas, um dia, quando chegou do trabalho, viu que as duas tomavam banho, de porta aberta, e acariciavam-se. Ficou algum tempo a observá-las e até gostou da ideia. Não seria nada mau os três na mesma cama. E ficou matutando a ideia.
Mas, eis que nada disso aconteceu. A esposa o tirou da cama e os poucos dias de Luciana transformaram-se numa eternidade. Ela não foi mais embora e ele perdera a sua cama e o amor de Esmeralda, a esposa. Brigou, bateu o pé, ameaçou sair de casa. Não teve jeito, resignou-se ao reles papel de hóspede e foi dormir no quartinho dos fundos, junto à área de serviço.
Agora, ela o abraçava novamente, enquanto Luciana fazia as suas malas. Ela ainda tinha os seios duros, as coxas grossas, o bumbum firme, mas encontrara um novo amor. Dizem que é mais nova que a Esmeralda e que possui carro e mansão. A esposa chorava encostando a cabeça no seu ombro, enquanto ele observava a amiga, que saía porta à fora. E, estranhamente, batera-lhe, de súbito, uma imensa saudade da sua velha cama.


A INSIGNIFICÂNCIA


De quando comecei a escrever, nem me lembro mais, da mesma forma que não sei como comecei a rabiscar minha pequeninas ideias no papel. Vislumbrado, até alguns dias atrás me considerava escritor e poeta, mas, convencido por um amigo escritor, hoje tenho a certeza de que sou apenas um maniado a escrever.  E deste jeito vou levando a minha rotineira vida: com um, ou dois poemas de manhã, uma Crônica ao meio-dia, um Conto ao entardecer e um Romance à noite, nada de surpreendente.
Ultimamente, tenho lido algumas matérias de “O Cometa Itabirano” que versam sobre Drummond, o Carlos, além de, há uma semana, ter visto um média-metragem sobre outro Drummond, o Roberto. Ótimos escritores, com estilos diferentes, olhares diferentes, mas, de fato, escritores. Confesso a minha inveja sobre ambos, afinal, nunca fui pop, nem de ferro.
Tenho me embebido também de autores regionais, de autores nacionais modernos, de autores estrangeiros, e de coisas da internet. Tenho lido os jornais de BH, tenho folheados os livros didáticos e, acredite, estou conhecendo Maíra, do Montesclarense Darcy Ribeiro. Mas, sobretudo, tenho cultivado minha mania de escrever.
De política, pouco tenho lido. Apenas coisas sem muito valor, como as crises governamentais, os acordos politiqueiros, as falcatruas e as armações contra a sociedade. Sobre futebol, apenas os Clássicos, com suas brigas, seus marketings, e quase nada de espetáculo. Tenho me isolado ainda mais de todas as coisas que não me convêm, e, prefiro ainda ficar com meus livros e minhas manias.
Ao contrário dos Drummond, ainda não me fizeram qualquer estátua, ainda não me convidaram para qualquer academia, ainda não me pediram qualquer entrevista ou me convidaram para escrever em algum jornal. Fosse há algum tempo e eu haveria de me sentir indignado; mas, agora, alertado pelo dileto amigo, reconheço a minha quase insignificância. 

A OPORTUNIDADE


Enquanto a vida passa, alguns teimam em permanecer imóveis, assentados em sua parcimônia, sem produzir, sem progredir. A verdade é que fomos feitos para crescer, para criar, para movimentarmos enquanto ainda houver vida. Enquanto a moto vai seguindo rapidamente o seu caminho, passo os olhos pela beira do asfalto esburacado e vejo a inaptidão de muitos, a morte caminhando à beira.
Durante toda a estrada, enquanto sigo o meu caminho, vejo alguns indivíduos a espera da oportunidade. Tolos, não existem oportunidades, apenas oportunistas, que criam o seu próprio momento, que correm atrás, que fazem o seu caminho e, competentes, seguem-no com esperteza. Enquanto isso, os imóveis seres, veem a vida passar, lentamente, como se tudo fosse uma imensa covardia.
Às vezes, penso em parar, descer da moto e pegá-los pelo braço; erguê-los além das nuvens e fazê-los enxergar a tristeza e a monotonia a que se acostumaram; penso em jogá-los para os céus e esperar para ver aonde cairão; mas não faço, apenas olho, enquanto a moto passa, enquanto a vida corre, às vezes lenta, noutras, rápida demais.
Talvez aqueles seres ainda tenham sonhos; quem sabe, ainda pensem em progredir, caminhar um pouco mais, chegar um pouco adiante, mas, creio eu, de certo já lhes falte a força necessária e, ainda que as oportunidades existissem, se, um dia lhes caísse uma ao colo, não saberiam o que fazer, afinal, já se acostumaram à paralisia em que se encontram.
A moto finalmente passa e eu sigo o meu caminho. Aqueles seres, homens, mulheres e crianças, todos desprovidos de vida, vegetam a margem da rodovia, à beira da sociedade. E eu sei, quando eu voltar, se um dia voltar, certamente que ainda estarão por ali, com seus olhos de preguiça, suas caras de preguiça e seus velhos pensamentos de que um dia, quando menos esperarem, a grande oportunidade ainda há de chegar. 

CRONICAS DE ELISMAR SANTOS

CRÔNICA: HOMEM PERGAMINHO

Minha filha, ligada aos celulares, tablets e tantas redes wifis, diz que sou um cara-pergaminho, afinal, ando sempre carregado de grandes almaços de papeis, sempre os deixando espalhados pelos cantos da casa, sempre me perdendo por entre as suas entrelinhas. Mas a grande verdade é tenho ficado velho, meio que estagnado no tempo em que tudo era mais romântico, poético, tudo era lua e sol, sem mais delongas.
Os cabelos brancos começam a preencher os lugares onde só haviam negras mechas, as rugas tomam conta da velha face, já desgastada pelo tempo, pelas dores, pelas inconstantes poesias, e, como diz a poetisa “Já não tenho mais aquele rosto”, já não me reconhece em minha face e, acredito, talvez tenha me perdido por entre tantos pergaminhos.
Lembro-me, e isto já vai longe, que batíamos todas as nossas escrituras em avançadas máquinas datilógrafas, o que nos tomava um tempo precioso, além de um barulho que nos deixavam zonzos. Éramos poetas marginais e, talvez por isso, ainda não tínhamos a precisão da modernidade, dos avanços que nos chegariam pelos vieses tecnológicos. E “pergaminhávamos” pela vida, como se aquele fosse o nosso infindável destino.
Mas, eis que vieram o computador, o celular, o i-pad, as redes wifis e as crianças tecnológicas. E já não vejo mais os passarinhos que cantavam na grande mangueira, bem no quintal de minha casa, por onde passava um pequeno rio e nadavam lindos peixes multicoloridos; já não sinto mais o cheiro da relva molhada, nas noites serenadas, quando os homens, vestindo terno e fumando cigarros enormes, desciam as ruas, com suas violas inspiradas, para fazerem serenatas em alguma janela das ruas debaixo.
É certo, sou um homem-pergaminho, com minhas lembranças, meus papéis e minha mortal nostalgia. Enquanto isso, minha filha, toda infante a princesa, tecnologicamente, escreve as mais belas poesias que eu nunca fiz, mas sempre sonhei; ainda que por um emaranhado de redes, que se debatem com os sonhos, com as almas e as ilusões, em meios aos prédios, aos carros, às lembranças que me surgem de alguma antiga solidão. 

CRÔNICA: AQUELA TARDE


É de Ferreira Gullar o verso que diz “Eu devo ter ouvido aquela tarde”. E era uma tarde quente, como são todas estas tardes de fim do mundo e não havia pássaros, nem nuvens, nem qualquer pessoa vagando a esmo pela rua. Somente eu estava lá, encostado na amurada do meu apartamento, fumando meu cigarro, tomando minha cerveja, morrendo a minha morte e lembrando a célebre frase do meu amigo PC, no livro “O Zelador de Almas”, uma obra brilhante: “Você vai vivere sempre ao mio lado, sempre”.
Não vivemos, afinal, isto foi em outra época, antes da grande depressão, quando ainda éramos crianças e morávamos à margem da vida, quando eu ainda não era famoso, nem corria pelos campos, à beira do grande rio, com as chinelas nas mãos e um monte de ideias na cabeça. E naquele tempo, quando nem barba eu ainda tinha, nem sonhos, nem uma luneta que me deixasse ver a lua e suas entranhas, eu ainda não sabia viver.
Mas eis que, na solidão dessa tarde, enquanto eu morria a minha morte, os sonhos me vieram todos, um por um, e foram passando à minha frente, como que num filme interminável, que quase me levavam ao sono. Segurei-me para não cair sobre o meio-fio por onde descia uma água suja, já quase com gosto de sangue. Coloquei-me forçado sobre um dos cotovelos, encostado na amurada e pus-me a observá-los. E eram sonhos lindos, longínquos, como se fossem parentes distantes que me viessem visitar.

CRÔNICA: AQUELA TARDE


Tentei fugir daquele estado em que me encontrava; joguei o cigarro fora; derramei meu último copo de cerveja e comecei a caminhar por entre as ruas íngremes daquele instante. Primeiro fui devagar, depois acelerei o passo e, quando dei por mim, já corria feito louco por aquele labirinto estranho, naquela tarde quente e louca do meu peito. Mas, eis que um daqueles sonhos pegou-me pelo braço e prendeu-me em suas entranhas.
Tentei gritar por socorro, pedir por clemência e piedade; mas a minha voz não saía. Meus olhos começaram a se fechar e uma escuridão sombria tomou toda a minha alma. Morri. Depois, como se tudo recomeçasse, jogaram-me dentro de um grande rio, sem fundo, sem fim, e eu fui descendo, sempre à margem, até que uma lua, tomada por brilhos e paetês, surgisse já quase ao pé da última árvore, que também corria do meu lado, à beira d’água. E foi então que adormeci e tudo me pareceu mais leve e real.

A CHUVA

O sertanejo se alegra com a chegada das chuvas. Estava quente aqui no norte, estava seco, estava triste; mas, eis que São Pedro deitou os tambores e a água caiu. Do meu quarto, enquanto escrevo esta Crônica, ouço o cantar das jandaias amontoadas na laranjeira, enquanto os pingos batem no telhado e escorregam pela parede, até chegarem, serelepes, ao chão. E, só então, fico pensando no quanto tudo isto parece uma grande sinfonia.
Sempre fui ruim de música, embora tenha me embrenhado por algumas poucas vezes na aventura da composição; mas, sei, certamente que sei, distinguir uma boa música de um emaranhado de ruídos. Pare a leitura e ouça o cair da chuva... Agora, tente criar uma canção sobre o som. Tudo é perfeito, ritmo, melodia, música... A vida.
Enquanto isso, o sertanejo ouve apenas o som das gotículas que molham a terra, penetram-na e vão dar bem junto das sementinhas, que darão frutos, e vidas, e sonhos; esperança. Não há dúvida, o homem do sertão é um ser de esperanças, ainda que não chova, ainda que não vingue as plantações, ainda que tudo sejam apenas ilusões. Mas ele estará sempre lá, à espera dos desígnios celestes. E a chuva vem, mansinha, como se quisesse fazer um cafuné no cocuruto da terra seca, dura, quase morta.
Na capital também chove. E o Arnaldo sempre pensava assim: que a chuva na capital era besteira, perda de tempo das nuvens; afinal, lá não se planta, tudo se compra, se consome. A chuva tinha que vir é pro sertão, onde tudo se faz de verdade. Mas esta era a opinião do meu amigo. Coitado do Arnaldo! Não viu esta chuva que cai dengosa sobre a jabuticabeira e o limoeiro, nem sentiu o cheiro da terra molhada, que sobre pelos ares e vem direto ao nosso peito. Mas ele sabia que a chuva é a vida do sertanejo.
O Arnaldo não viu a chuva. Mas o Renato sente-a batendo na viseira do seu capacete azul, enquanto corta os carros, em zigue-zague pela Via Expressa, talvez na esperança de que um dia todos eles abram passagem, e ele não precisa buzinar, nem xingar, nem se contorcer de dores, de medos, de esperanças. Enquanto isso, os carros gritam, os homens navegam na internet, as mulheres seguem para o trabalho, e a chuva cai, fazendo cafuné no cocuruto da terra seca, dura, quase morta do sertão.

Coisa de Competidor 

Acho que o último de nós foi o Fernando. O primeiro foi o Ricardo, depois o Elias e, logo em seguida, eu. Eu era o menor da turma, e o mais gordo; as pernas eram bem mais curtas que o resto do corpo, mas, ainda que desengonçado, conseguia uma boa velocidade de reta, perdendo-a, aos poucos, nas curvas. E, desta forma, terminamos a nossa primeira corrida.
Estávamos ainda no fundamental, na ainda 5ª série, e era a primeira aula de Educação Física. Como não sabíamos jogar futebol, nem éramos bons em jogos que exigissem qualquer forma de inteligência, corremos. A ideia foi do Elias. Deveríamos correr até o final da quadra e voltar em disparada, tocando, antes, na parede do vestiário.
Acho que ninguém notou a nossa façanha, afinal, estavam todos entretidos com o futebol, ou com as conversas de arquibancadas. Mas corremos todos, em debandada rumo ao vestiário. De início, o Ricardo conseguiu uma boa distância para os oponentes, mas, depois, faltou-lhe fôlego e ele foi morrendo, morrendo, até que acabasse em primeiro, e, quando todos pensávamos que o passaríamos de vez, ressurgiu das cinzas e recuperou a liderança.
O Elias ainda tentou chorar alguma reclamação, mas foi logo rechaçado por todos. Calou-se e amargou a sua primeira dentre muitas outras derrotas. O Fernando,o Ricardo e eu, ficamos no nosso canto, pois sabíamos da nossa inferioridade e contentávamo-nos com a grande façanha de terminarmos a corrida; mas, o Elias, aquele era diferente. Sempre queria vencer, sempre competitivo, sempre O Elias.
Depois daquela ainda disputaríamos diversas outras corridas e, como sempre, o Fernando e eu ficaríamos com as últimas posições, com o Ricardo e o Elias lutando pela liderança. E ainda hoje é desta forma: Fernando, como bom idealizador, sempre com ideias novas e inovadoras, firmou-se como publicitário, sem, no entanto, ainda ter alcançado o seu maior sucesso.
Eu tornei-me mero escriba de histórias alheias, observando e copiando as vidas de outrem, não me importando de ficar para trás, desde que tenha uma visão privilegiada. O Ricardo, grande atleta e vigoroso, formou-se em Educação Física e trabalha em um grande time da capital, preparando alguns dos melhores atletas do país.
O Elias, o mais competitivo de todos nós, faz tempo que não o vejo, nem tenho qualquer notícia sua. Mas,acredito, deve ter se transformado num dos melhores caras deste país. Se não, pobre do meu amigo, talvez tenha se embrenhado em uma infindável decepção. Coisa de competidores!

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